BananinhaAzul porque um dia perguntei a cor de uma banana á minha filha e ela respondeu azul. Embora também pudesse ter este nome porque a cor azul é repetidamente relacionada com Autismo.
Com este blog passo a fazer uma das coisas que mais gosto de fazer que é escrever e escrevo sobre uma temática em que realmente tenho alguma coisa para dizer... Goste!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Entrevista ao Neurociêntista Alysson Muotri...


Alysson Muotri é o investigador que está á frente da equipa que fez a descoberta de como curar neurónios de pacientes com a síndrome de Rett em 2010 e mais tarde com neurónios de pacientes com autismo clássico.
O brasileiro é pesquisador no Instituto Salk para Estudos Biológicos em San Diego, Califórnia e foi desde que começou os seus estudos académicos, que se interessou pela área da neurociência.
Neste momento, já tem mais de 20 artigos publicados em revistas de renome ciêntificas, uma carreira a seguir com atenção.



Edite Oliveira: Como está a decorrer a sua pesquisa?

Alysson Muotri: A minha pesquisa utiliza neurónios derivados de crianças
autistas. Nós comparamos essas células com os de pessoas típicas, procurando descobrir alterações nas células nervosas, uma vez achadas essas alterações, nós usamos drogas experimentais na tentativa de reverter os defeitos.

 E: o facto de células autistas serem mais pequenas que uma célula neurotipica é na realidade a causa do autismo ou mais um problema decorrente do autismo?

Alysson Muotri: não sabemos, existem diversas evidencias sugerindo que uma célula menor tem alterações metabólicas importantes, dai a correlação. Mas não foi possível provar causalidade.

E.: A hipótese poderá vir a ser considerada lei cientifica e estarmos perante um paradigma?

Alysson Muotri: É uma questão interessante, pois a única forma de provar causalidade é fazer experimentos em pessoas, analisando o cérebro post-mortem. Algo muito difícil de se conseguir.

E.: Esta hipótese por enquanto é decorrente da evidência positiva? Está a usar o raciocínio intuitivo?

Alysson Muotri: Sim, em modelos animais observamos a mesma coisa, quando os neurónios são pequenos, os animais apresentam comportamentos autistas. Ao reverter o tamanho das células, os comportamentos voltam a normalidade. Agora não sabemos se isso acontece também em humanos, mas a evidencia é forte.

E.: A avaliação das evidências é influenciada em parte pelas nossas convicções anteriores, é importante estar protegido da realidade emocional... Consegue abstrair-se da importância deste estudo e dos benefícios em que está a trabalhar?

Alysson Muotri: É o que os cientistas são treinados pra fazer, no entanto, somos humanos também e, portanto, podemos nos enganar. Dai a importância da validação dos dados por grupos de pesquisa independentes.

 E.: As suas observações foram sempre no sentido da cura das células? Conseguiu a reversão de todas as células em que fez a experiência?

 Alysson Muotri: Correto. Sim, dependendo do tipo de droga usada, a reversão é total.

 E.: Eu li que devido á barreira hematóencefálica as drogas que usou para curar as células não puderam ser administradas directamente no cérebro, como é que vai ultrapassar este entrave?

 Alysson Muotri: Procurando novas drogas que cruzem essa barreira ou modificando as que já existem.

E.: Então é como se estivesse a voltar atrás na pesquisa?

Alysson Muotri: correto.

 E.: Vai atrasar os resultados , por mais quanto tempo? Tem noção?

Alysson Muotri: Os primeiros resultados foram uma "prova de principio" de que isso seria possível. Agora é que começam os experimentos práticos. Depende muito das verbas para a pesquisa. A crise dos EUA não nos tem ajudado muito. Ficamos a depender de doações e da iniciativa privada.
  
E.: Voltando um pouco atrás, já curou uma célula Rett, uma célula de autismo clássico, as duas células autistas são diferentes entre si?

Alysson Muotri: Até aonde a gente analisou, elas se comportam de maneira muito semelhante. Lógicamente não testamos muitos autistas clássicos. Imagino que nem todos irão se comportar como Rett, apenas uma parcela. O lado bom disso é que descobrimos vias comuns entre as duas condicões. Do ponto de vista terapêutico, isso é excelente.

 E.: E as restantes formas de autismo? Prevê que células ajam de maneira idêntica a estas duas?
 Nomeadamente autismo atípico...

Alysson Muotri: Não. Acho que isso vai depender do tipo de autismo. São muitos quadros clínicos diferentes. Imagino que quadros mais leves mostrem outras características. Mas ainda não fizemos os experimentos com todos os tipos.

 E.: Isso vai desanimar um pouco os pais..

 Alysson Muotri: Acho que não há motivo para desanimo. As diferenças podem ser mais fáceis de se corrigir.

E.: Pode-me falar da randomização? A quantidade de crianças estudadas, se trabalhou com ambos os sexos, as idades...

Alysson Muotri: Sim, por enquanto temos dados com poucas crianças. São apenas 10 do sexo masculino, com idades de 7 a 12 anos.
 Esse trabalho é muito caro e leva tempo para executar, por enquanto aumentar o numero de pacientes é muito custoso. Vai melhorar com o tempo, pois a tecnologia vai ficando cada dia melhor.

E.: Então não se sabe, como irão reagir as  células de meninas.

Alysson Muotri: Apenas as de Rett foram feitas com meninas.

E.:Mas em relação ao estudo do Rett, também foram usadas células de meninos?

 Alysson Muotri: Sim, com Rett fizemos de meninas e meninos.
 
 E. E em relação às idades?

Alysson Muotri: Na verdade, a idade dos pacientes não importa, pois ao reprogramar as células somáticas, trazemos para um estagio embrionário.

E.: Quando descobrir a nova droga, já pensou como vai testar? Em que animal?

Alysson Muotri: A ideia é pular a parte animal, pois os modelos não são bons para autismo. Os ensaios clínicos irão começar directamente em pacientes humanos. Isso porque estamos usando drogas que já foram testadas para toxicologia e mostraram pouco ou nenhum efeito colateral em humanos.

E.: A experiência em humanos não poderá levantar questões éticas?
 
 Alysson Muotri: Qual?

E.: Por exemplo, que não se conhecem os efeitos no uso prolongado... estamos aqui a falar hipotéticamente, porque ainda não se sabe qual é a droga a usar...

Alysson Muotri: Mas é justamente por isso que temos que fazer os experimentos, não é? Questões éticas são sempre abordadas contrastando "custo" e beneficio.

E.: Como é que vai conseguir convencer os pais a participarem?Não será difícil?

Alysson Muotri: Não pretendo convencer. Só trabalharemos com voluntários.


E.: Os seus estudos já fizeram parte de uma meta análise?

Alysson Muotri: Não, isso tudo ainda é muito novo. Mas nossos dados já foram reproduzidos por outros 5 grupos de pesquisa espalhados pelo mundo, o que é muito bom.

E.: Falou-me em problemas de financiamento, mas ao que julgo saber já houve farmaceuticas interessadas no seu trabalho..

 Alysson Muotri: Correto, elas tem interesse pois sabem que é algo novo e promissor. Por outro lado, tem histórico de perda de investimento na área neurológica. Ou seja, elas preferem investir em medicamentos para câncer do que doenças neurológicas. Acho que isso vai mudar com o tempo. Em geral, elas esperam a academia ter os primeiros resultados clínicos para investir, é menos arriscado para a farma.

 E.: Por enquanto mantém-se independente?

Alysson Muotri: Por enquanto o laboratório está sendo financiado pelo governos dos EUA e filantropia.

E.: Na semana passada no Autism Europe Congress alguns profíssionais defenderam que o tratamento eficaz para o autismo só é esperado para daqui a 40 anos.

Alysson Muotri: É a opinião desses profissionais apenas. Isso é impossível de se prever na minha opinião. Muitas vezes, isso é falado para tirar a expectativa dos pais. Eu discordo, sou contra o conformismo. Acho que temos que lutar para isso aconteça o quanto antes.

E.: Na sua opinião, porque é que a comunidade médica, e até cientifica é tão resistente aos novos estudos, nomeadamente, o uso de células tronco?

Alysson Muotri: A resistência ao novo, faz parte do ser humano. É normal.

E.: Qual é a estimativa que faz do tempo que demorará a obter a droga nova, testá-la, criar o medicamento, comercializá-lo?

Alysson Muotri: Se tivermos a droga ideal hoje e sem problemas de financiamento, levaríamos 3-5 para testa-la clinicamente. Se funcionar, imagino que mais 1-2 anos para comercializa-la.

E.: Então em grande parte tudo depende do tempo que demorar a encontrar a droga?

Alysson Muotri: Basicamente sim, é o primeiro passo. Vale lembrar também, que os ensaios clínicos não são simples de acontecer. Custam ~$10 milhões de doláres e envolvem muitos profissionais.

E.: Se tiver uma droga plausível, a industria farmacêutica não iria  investir?

Alysson Muotri: Depende muito do tipo de droga, mas é possível sim. Lógicamente que quando chegarmos nesse estágio iremos procurar parceria com eles.

E.: O que aconteceria se no fim dos testes clínicos se percebesse, que afinal. embora tivessem aumentado o número de sinapses, o autismo permanecia?

Alysson Muotri: Concluiríamos que o problema não é nas sinapses. Isso seria fantástico! Saberíamos que não é por ai que devemos seguir. Actualmente, a grande maioria dos pesquisadores aposta nisso, então seria uma forma de fazê-los focar em outros aspectos.

E: O que pensa das novas teorias que relacionam autismo com problemas gasto-intestinais, do tratamento biomédico e da dieta sem glúten, sem lactose e sem soja?

Alysson Muotri: Acho que são todas ideias interessantes e que merecem ser pesquisadas a fundo. Não acredito que expliquem a maioria dos casos, mas podem explicar alguns casos.

E: Quase a terminar, como estão a correr os ensaios clínicos para a síndrome de Rett?

Alysson Muotri: Não estou envolvido com os ensaios clínicos de Rett, são grupos independentes que decidiram começar os ensaios com o IGF1. Até onde eu sei, a etapa inicial foi animadora e todas as famílias decidiram continuar pois acharam que houve melhora. A fase II deve terminar ate o final do ano e ai teremos mais dados sobre a eficácia do medicamento.

E. Mesmo a terminar, disse numa entrevista que deu, que o investigador Yamanaka, iria em alguma altura receber o Prémio Nobel, é também uma ambição sua?

 Alysson Muotri: O Yamanaka realmente foi agraciado com o Nobel ano passado. Eu não tenho essa ambição, minha motivação é outra.

 E. E qual é, podemos saber?

 Alysson Muotri: Lógico, me motiva saber que o autismo pode ser reversível e que existe uma forma de ajuda-los a se tornarem mais independentes. Conseguir isso pra mim é motivo maior do que 100 prémios Nobel juntos!



Fim

6 comentários:

  1. Edite amei a entrevista e percebi que voce explorou todas as duvidas e Alysson Muotri respondeu de modo correto todas elas. Eu sou uma mãe que defende a criação de um centro de pesquisa do autismo no Brasil. Meu filho autista é adulto e apesar de ser pintor é autista clássico, a pesquisa para ele é o melhor do que qualquer tratamento. Como voce percebeu o cientista Alysson Muotri é avançado na pesquisa . O que lhe falta? Equipamentos + gente trabalhando com ele + investimento . E isso é pouco, porque o laboratório dele vive de doações. Ele precisa pagar 20 pessoas para ajuda-lo. São várias etapas que precisam ser executados... Por isso o Brasil que não está em crise podia investir, mas aqui eles só se preocupam agora com Copa do Mundo reeleição . A Presidenta Dilma Mulher e mãe ainda não falou nada sobre os autistas e nem recebeu nenhuma mãe apesar de eu ter solicitado muitas vezes audiência com ela. Muito preocupante, temos o cientista , que é brasileiro , é um homem de caráter , mas não temos ajuda do Governo Federal. Mas nós mães do Brasil, nao vamos desistir...Por nossos filhos, precisamos agilizar as pesquisas! Ray Gonçalves Mélo.

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  2. Olá Ray, acompanho essa vossa luta, pela criação de um Centro de Pesquisa no Brasil, espero que o consigam o quanto antes, é realmente muito muito importante, é fundamental... Mas não se esqueça que mais importante que haver o centro é haver o investimento, e nisso a sociedade cívil, pode dar uma mãozinha, nem que seja a consciencializar para essa necessidade... Beijinhos e boa sorte :)

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  3. eu acho que o dr> Alysson Muotri é a esperança para os Autismo e o Governo com certeza vai abraçar a causa mesmo porque é obrigação afinal pagamos impostos caríssimos e é o mínimo que podem fazer na àrea da educação e saúde ! não é o que pregam antes das eleições porque na verdade os comícios não passam de uma pregação com uma diferença ,a pregação é real e a política é utopia

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  4. Respostas
    1. Os comentários não entram automáticamente Vô Chica, tenho que os aceitar para eles entrarem e só agora aqui vim :) Beijinho

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